Por falta de espaço, não pude publicar na
coluna da semana íntegra a entrevista que Edgar Franco, talentoso irmão de nossa querida “tipa”
Ariadne, concedeu esta semana.
Então, lá vai. É uma boa para quem não conhece saber um pouco da história dos quadrinhos alternativos no Brasil e também compartilhar a visão de um artista que não abre mão de seus conceitos e convicções para continuar produzindo no injustiçado underground nacional.“SOBRE O QUADRINHO UNDERGROUND NOS DIAS DE HOJE - UMA COMPARAÇÃO COM OS ANOS 80 & 90:
Eu me sinto um veterano na cena da HQ underground, apesar de ter só 34 anos. Vivi um momento de grande efervescência da HQ alternativa brasileira, a explosão criativa dos anos 80 e 90 – com centenas de zines espalhados pelo Brasil de norte a sul, com grande liberdade e experimentação de linguagem por parte dos novos artistas que a cena viu nascer, um sem número de tendências como o expressionismo de artistas como Hermuche, Jamson Madureira, Ricardo Borges, Alberto Monteiro, ou a fantasia filosófica de Gazy Andraus, & Flávio Calazans; o nonsense fantasista de Henry Jaepelt, o pós-punk visionário de Law, o dadaísmo neoconcreto de Amaral, a verve criativa e a versatilidade de Joacy Jamys, além de outras tendências fortes como a linha de artistas influenciados pelo universo do terror gore com talentos como Leonardo Muniz, RPC, Márcio Kurt, Baiestorf e ainda alguns roteiristas cerebrais e de muito talento como Marcelo Marat, Gian Danton...poderia ficar citando nomes aqui sem parar, pois foi realmente uma safra de grandes talentos...mas o que aconteceu com a maioria deles, sucumbiram às dificuldades existentes num país sem mercado para a HQ nacional – e tiveram que abandonar o meio para ganharem a vida.
Ser experimental num país que nem tem espaço para as HQs de narrativa tradicional, é complicado. A cena hoje para mim vive um momento complicado, o experimentalismo e amor pela linguagem das HQs que foi a marca dos anos 80 e 90 praticamente morreu, ele sobrevive no trabalho de alguns artistas persistentes. As novas gerações estão extremamente influenciadas pela moda do mangá e dos ditos grandes heróis da HQB – os operários, mão de obra barata do terceiro mundo – que desenham quadrinhos para os EUA, são esses escravos do sistema que submetem seus trabalhos a um sem número de regras que servem de exemplo para as novas gerações – Mikes & Joes que tem seu nome de cucaracha mudado pra não assustar os leitores preconceituosos gringos! Eu não tenho nada contra o trabalho destes desenhistas, eles estão ganhando a vida honestamente com o seu desenho, mas daí a creditá-los como ídolos, exemplos a serem seguidos são outros 500, elas não são “quadrinhistas”, são só desenhistas, pois não criam nada, e são obrigados a adaptar seu estilo de traço ao padrão vigente na moda Norte Americana. Por quê os EUA não importam roteiristas do terceiro mundo???? Temos excelentes roteiristas por aqui também, Gian Danton é mais autêntico e criativo que dezenas dos atuais roteiristas Estados Unidenses que tentam copiar Alan Moore mas não, eles não querem que pensemos, para eles, desenhos até macacos bem treinados podem fazer, mas escrever as histórias isso não é coisa para nós.
Nós estamos fadados ao ostracismo e ao esquecimento, a não ser que resistamos como artistas legítimos que somos, eu tenho consciência clara da opção que fiz por desenvolver meus quadrinhos experimentais e autorais, sei das dificuldades de se publicar um trabalho como o meu, mas tenho preferido pagar o preço desta opção e continuar genuíno.
A minha geração de quadrinhistas foi o produto de uma geração que experimentou muito no cinema, nas artes plásticas e nas HQs, sofremos influência direta de trabalhos contestadores, iconoclastas e inventivos como as criações do movimento underground dos quadrinhos Norte Americanos na década de 60 (Crumb, Shelton, etc), da geração da Metal Hurlant francesa dos anos 70 & 80 e também das HQs contestadoras brasileiras do Pasquim, de Henfil, do cinema de ruptura da Novele Vogue, Cinema Novo, FC de vanguarda de Giger, Ridley Scott, Cronemberg, além de um pouco de resquícios do psicodelismo, da busca pela transcendência dos Hippies e do anarquismo iconoclasta dos punks, tudo isso explodiu na nossa cabeça durante a nossa formação como artistas nos anos 70 & começo dos 80 – o eco desses movimentos era fresco e potente ainda.
Depois vieram os anos 90, era dos yuppies, workahoolics, consumismo como valor de status quo, superficialidade. Os novos quadrinhistas têm crescido sobre essas influências e tudo que veio de novo na HQB foram os mestres que desenham pros gringos e a invasão do mangá – um estilo de HQs com muitos aspectos interessantes na sua estrutura, mas que serviu perfeitamente para a proliferação de lixo superficial de ação, conseguindo ser menos denso e ainda mais vazio que as HQs de super-herói da última década – esses são os exemplos que inspiram a nova geração de quadrinhistas que está despontando aí. É claro que generalizar é coisa de imbecil, existem muitos quadrinhistas jovens com um trabalho criativo e inovador, como o Alcione, por exemplo, mas pelo que tenho visto, o número de talentos emergentes é bem menor do que o visto nas duas décadas passadas. Acho que vivemos a era do “entretenimento pelo entretenimento” (como tivemos a tal “arte pela arte”), parece que ninguém está preocupado com mensagem, isso virou coisa demodê, careta, o negócio é diversão sem limites, desvairada, crua e nua, um neo-hedonismo visceral que envolve amor pela crua violência encenada e pelo movimento acelerado incessante, a coisificação das relações humanas...não tenho nada contra diversão, temos que nos divertir, mas é importante refletirmos para não nos alienarmos. Hoje mais do que nunca vivemos a era do Pão & Circo, mais circo do que pão, é claro.
SOBRE AS HQS CONCORRENDO COM OUTRAS FORMAS DE ENTRETENIMENTO:
A INTERNET tem a vantagem de ser um canal barato e acessível, mas a grande dificuldade é fazer as pessoas “realmente” visitarem o seu site e lerem seus trabalhos, o processo de leitura na hipermídia é muito diferente da leitura tradicional, ele remonta mais os nossos processos de pensamento, ligações múltiplas e infinitas entre links e assuntos diversos, é muito difícil um leitor passar um longo tempo lendo o mesmo texto ou HQ na Internet, normalmente ele abrirá outras janelas, ou clicará em links que o levarão a outros sites, a navegação é dinâmica e multilinear, é por isso que HQs para download são mais lidas do que as disponibilizadas on-line, a tentação de navegar pela rede é maior do que a concentração para lermos uma HQ...nesse sentido a “imersão” na obra é muito menor quando estamos lendo algo em rede ou no computador do que quando lemos em suporte papel – em rede temos a multiplicidade dos nodos, e o próprio computador é um instrumento múltiplo que nos induz a realizar diversas atividades paralelamente, a atenção não fica concentrada em uma ação – é outra forma de apreensão, por isso, no computador é importante tentar trabalhar mais de um sentido, para aumentar a atenção do leitor.
Nos zines a resposta era certa, o público leitor era selecionado, você tinha certeza que seria lido, e a atenção e imersão no trabalho era maior, por isso a resposta crítica era mais certa. Eu tenho um site desde 1999, já fiz muitos bons contatos com ele, mas jamais posso comparar a resposta de público que tive durante os anos que publico meu trabalho nos zines e revistas alternativas com a da net. Você envia seu link para centenas de e-mails, mas quantos irão ver seu site? É difícil atrair a atenção num universo tão amplo e irrestrito como o da web, além disso existem atrativos muito grandes como os sites de pornografia, de games, de fofocas...sabe qual é o site mais acessado na web brasileira??? O do Big Brother Brasil...a Globo continua campeã de audiência até na Internet – o novo meio de comunicação de via dupla, dito revolucionário...
As novas gerações têm perdido o interesse pelas HQs devido ao fácil acesso aos entretenimentos interativos de última geração, a sedução de participar como elemento ativo da história, como personagem do game, é muito maior do que a catarse de ler uma HQ e se imaginar como o personagem ou herói, esse é o principal motivo do desinteresse dos jovens pelos quadrinhos. O lucro da indústria dos games nos EUA ultrapassou o lucro de Holywood desde 2002, hoje o mercado dos jogos de computador & consoles lucra mais que a secular indústria cinematográfica...o que resta para os quadrinhos? Tornar-se uma arte de elite, como aconteceu com o teatro. Nos EUA, a indústria de HQs tem sobrevivido pela venda de direitos para filmes e games, se não fosse isso já teria ido à bancarrota.
Como não ouve renovação dos leitores, o número de zineiros tem diminuído, e mesmo na Internet o número de zines de HQS, por exemplo, é pequeno, com esse universo amplo de possibilidades penso que poderia ser bem maior.
SOBRE A HQ ALTERNATIVA EM 2006:
Os focos de resistência persistem e temos atualmente alguns excelentes exemplos de resistência independente, publicando trabalhos genuínos, autorais e de qualidade como a editora MARCA DE FANTASIA, capitaneada por Henrique Magalhães, publicando álbuns e livros de e sobre quadrinhos, com pequenas tiragens mas edições bem produzidas, o exemplo mais notório de editora alternativa brasileira. Algumas revistas alternativas do sul e sudeste como MOSH, AREIA HOSTIL & QUADRECA continuam vivas e fortes e prometem grandes surpresas para 2006, muitas iniciativas também partem de quadrinhistas do nordeste como as revistas MANICOMICS e PRISMARTE provam que a paixão pela HQ alternativa está viva em todo o país.
Infelizmente as editoras maiores nâo estão investindo praticamente nada na HQ alternativa, a OPERA GRAPHICA que abriu seu espaço para a HQB no início do novo milênio, fechou suas portas novamente e só publica livros analíticos luxuosos e HQ importada, é pena. A Devir investe em nomes consagrados, assim como a Conrad - com raríssimas exceções.
Sei que será um ano de grandes lançamentos, pois muitos amigos estão com projetos em andamento, de minha parte estarei lançando a revista ”Artlectos e Pós-humanos“ pela nova editora independente MB, estou em busca de uma editora interessada em publicar o álbum BIOCYBERDRAMA II - feito em parceria com Mozart Couto e tenho alguns outros projetos que prefiro manter em segredo até a finalização.”